Longe de Theros, no plano de Fiora, a Cidade Alta de Paliano é o lar de inúmeras intrigas e tramas. Os altos senhores da cidade disputam a supremacia. Jogadas são respondidas com contrajogadas, e a confiança com a traição, tudo sob os auspícios do imortal Rei Eterno. Mas o rei já foi um homem vivo, um dia, e amigo da exploradora elfa Selvala...
As paredes da sala de jantar privada do rei eram iluminadas por gemas encantadas, cada uma cuidadosamente colocada sobre uma haste de mármore entalhada — um simulacro cuidadosamente elaborado de uma vela, mas sem qualquer vestígio de calor. A câmara ficava no coração do complexo do castelo, e nenhuma luz natural chegava tão longe.
A mesa era grande o suficiente para acomodar doze pessoas, mas apenas duas jantavam naquela noite. O rei, Brago, com a pele pálida e rachada como pergaminho antigo, repousava em uma cadeira ornamentada. Sua convidada, Selvala, sentava-se na extremidade oposta, com um banquete espalhado entre eles. O prato do rei estava vazio. O prato da elfa estava intocado.
"Por que ainda fazemos isso, meu rei?" Havia uma dureza na última palavra, como a tensão em um fio de cobre. "Por que ainda seguimos com esses gestos? Sei que lhe dói me ver, e me dói ver no que você se tornou."
Os olhos do rei brilharam, mas seu corpo permaneceu imóvel por um longo momento até que uma voz rouca escapou de seus lábios rachados.
"Porque você me ajuda a lembrar."
Selvala balançou a cabeça. "Isso não é mais suficiente. Talvez tenha sido um dia. Antes de tudo... isto... sair tanto de controle." Ela acenou com a mão na direção dele, com desgosto estampado no rosto. "Quer você se lembre dele ou não, você não é o rei que um dia foi. Eu me lembro daquele homem. Aquele homem era meu amigo. E ver você, sentado na cadeira dele, vestindo o que resta do rosto dele, é um insulto àquele homem. Um insulto às coisas que defendíamos."
O corpo de Brago convulsionou e ele soltou um arquejo sufocado. Selvala reconheceu aquilo como a risada dele. "Talvez... eu devesse ter ouvido você. Talvez você devesse ter me feito ouvir."
O rosto de Selvala corou de raiva. "Oh, não. Você não vai colocar isso sobre mim. Eu o avisei. Logo no início, implorei para que não deixasse os Custodi iniciarem seus tratamentos."
"Mas você cedeu. Ainda tínhamos muito trabalho a fazer. Pela cidade."
Selvala estreitou os olhos. O rei já dissera mais naquela conversa do que em seus últimos dois jantares somados.
"O que está acontecendo, velho amigo? O que mudou?" Sua voz suavizou.
"No início, você e eu compartilhávamos uma visão."
A Cidade era jovem. Jovem, otimista e ambiciosa, e o Conde Brago era todas essas coisas também. Nascido como o terceiro filho de uma casa menor, suas perspectivas seriam limitadas em qualquer outro lugar. Mas não aqui. Não na Cidade. Na Cidade, os sonhos e ambições de uma pessoa eram a única fonte de limitação, e Brago conseguia enxergar longe, de fato. Conseguia ver além dos rancores mesquinhos e dos burocratas. Conseguia ver além das modas passageiras, das disputas intermináveis por glória e fama. Ele via o potencial bruto do que a Cidade poderia ser. Via seu coração pulsante, que batia em perfeita sincronia com o seu próprio. E conseguia ver um caminho para esse potencial. Estreito, talvez. Sinuoso. Traiçoeiro. E ele não poderia percorrê-lo sozinho.
Selvala, Exploradora Regressa | Arte de Tyler Jacobson
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"Há! Você me fala de uma visão? Isso foi há setenta anos, seu velho tolo. Sim. Sim, quando eu era tão tola quanto você se tornou, acreditei em você. Suas palavras gotejavam mel e luz e eu acreditei. O que torna sua traição ainda mais amarga, velho amigo."
"Traição?" A voz de Brago elevou-se, quase assumindo um tom humano mais uma vez. "Eu nunca. Nunca perdi de vista o que era melhor para a Cidade. Mesmo agora."
Os dois eram inseparáveis e trabalhavam juntos perfeitamente. Ele era um terror nos tribunais e câmaras de conselho, seus argumentos eram impecáveis, suas súplicas, irresistíveis. Construiu uma coalizão entre a nobreza, o clero e a classe mercante. Erradicou a corrupção e a substituiu por humildade. Mas sempre, sempre, mais poder acabava em suas mãos.
Ela era amada pelo povo, tinha os dedos no pulso de cada comunidade e enclave. Lutava pelos direitos dos imigrantes e convenceu muitos da velha nobreza titulada a abrir mão de privilégios que oprimiam o público, antes que o público se levantasse para depô-los. Juntos, redigiram a Carta. A ratificação foi unânime. Foram as mãos deles, unidas, que forjaram Paliano.
"Você perdeu de vista tudo assim que começou a valorizar sua própria vida acima daqueles a quem servia. Por quanto tempo você se permitiu acreditar que o que os Custodi estavam fazendo era medicina?"
"Era. Eu não ia deixar minha saúde nos impedir de alcançar nossos objetivos."
"Todo mundo morre, Brago! Todo mundo envelhece, todo mundo morre. Camponeses e reis da mesma forma."
Brago riu, uma risada de verdade desta vez. "Isso deve ser fácil para você dizer, parecendo apenas alguns anos mais velha agora do que quando nos conhecemos. Você não pode dizer o que teria feito no meu lugar."
Selvala olhou para baixo e pausou. "Talvez não."
O Rei Brago estava no trono há apenas três anos quando os médicos diagnosticaram sua doença. Hereditária e incurável. Ele não duraria o ano. Selvala ficou arrasada. Brago estava em choque. Quando os sacerdotes vieram até ele e disseram que havia tratamentos aos quais ele poderia se submeter que preservariam magicamente seu corpo, ele foi cauteloso.
Ele e Selvala discutiram e debateram o assunto exaustivamente. Nenhum dos dois gostava da ideia de colocar a vida dele nas mãos do sacerdócio, mas ambos temiam o que aconteceria caso o novo rei morresse tão cedo. As alianças que lutaram para construir poderiam desmoronar em um piscar de olhos. A cidade reluzente poderia se tornar cinzas cintilantes muito rapidamente. No fim, eles cederam. Os Custodi foram formados, e o rei viveu. E viveu. E viveu.
Arte de Alex Horley-Orlandelli
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"A história me julgará com justiça. Tudo o que alcançamos. Todo o bem que fizemos. Era o único caminho."
"Brago, se eu ouvisse essas palavras dos lábios de qualquer outro homem, saberia que ele é um tirano."
Brago pareceu murchar novamente. "Selvala. Não haverá mais tratamentos."
Choque, alegria e medo passaram pelo rosto de Selvala. Ela levantou-se, caminhou para o lado dele e ajoelhou-se ao lado de sua cadeira. Pegou a mão seca dele na sua. Não estava nem quente nem fria, e parecia ao toque nada mais que um velho livro encadernado em couro. "Brago. Esta é a escolha certa. Por tudo o que prezamos, sentirei sua falta, mas esta é a coisa certa a fazer."
Brago tossiu, um som sibilante e arranhado. "Não. Não é assim. Não haverá mais tratamentos porque eles foram longe demais. Eu não consigo morrer, Selvala. Minha mente apodrecerá nesta gaiola de ossos e pele. Já começou. Meus olhos já quase se foram. Não consigo comer, não consigo dormir. Não sinto mais dor, mas por muito tempo, doeu muito. Agora, sinto falta até da dor."
Selvala levantou-se de um salto, furiosa, sua mão agarrando reflexivamente o punho de sua longa faca de caçadora. "Aquelas monstros! O que eles fizeram com você? Pelo que fizeram, eu deveria..."
Brago ergueu uma mão inerte. "Não. Não. Volte sua raiva para mim. Onde ela ainda possa lhe servir. Selvala. Não consigo morrer naturalmente. Mas acho que preciso morrer. E você é uma das únicas três pessoas na Cidade a quem é permitido portar uma arma na minha presença."
Selvala fechou os olhos. Assim que ele disse as palavras, ela soube que faria aquilo por ele. "Brago. Você foi um bom rei. Um bom homem." Ela levantou-se, encarou seus olhos azul-leitosos e sacou sua faca. "Eu o perdoo."
Ela cravou a lâmina uma vez no coração do rei. Quase não houve resistência, como esfaquear um saco de grãos secos. Seu corpo antigo começou a desmoronar quase imediatamente e, enquanto virava pó, ele sussurrou duas palavras:
"Você não..."
Selvala saiu da sala de jantar e jogou sua faca no chão. Os guardas a escoltaram para fora sem uma palavra.
Os Custodi entraram arrastando os pés na fria sala do trono, com as mãos escondidas em suas mangas longas tanto pelo calor quanto pelo decoro. Rostos cinzentos, homens e mulheres de olhos duros, espreitavam sob capuzes bordados. Formaram um círculo, e o mais velho falou. "O Rei está morto. Manteremos a notícia contida o quanto pudermos, mas o conhecimento escapará destas paredes. Antes que isso aconteça, se desejarmos permanecer no poder, temos muito trabalho a fazer."
A temperatura na sala caiu subitamente, e as luzes oscilaram. Uma presença entrou na sala. Fria e irada.
Uma névoa azul começou a coalescer, fiapos rastejando dos padrões no chão de mármore liso. Alguns dos Custodi arquejaram e recuaram. A névoa tornou-se mais espessa, mais densa, e fluiu como um rio em um leito invisível.
Os Custodi estavam sobressaltados; olhavam de rosto encapuzado em rosto encapuzado em busca de qualquer sinal de que um deles pudesse entender. Não encontrando consolo, os sacerdotes olharam ao redor da sala, cada vez mais frenéticos.
Um brilho apareceu diante do trono. A névoa ergueu-se e formou a silhueta de um homem, e a ideia de uma armadura tornou-se sólida ao redor dele. Olhos olharam para os Custodi, escuros porém reluzentes, e os sacerdotes encolheram-se diante dele com medo.
Brago, o Rei Eterno | Arte de Karla Ortiz
"Vocês não farão nada disso. Vocês anunciarão o que aconteceu. Que o grande trabalho dos Custodi está concluído. Que seu rei ressuscitou, com a mente mais forte do que nunca, libertado da prisão de seu corpo. Este é um dia de celebração." A voz do espírito era profunda e severa. "Pois vocês tiveram sucesso. A menos que queiram me dizer que seus tratamentos tinham outro objetivo em mente?"
O pânico passou pelos rostos dos Custodi. Gaguejaram sua confusão, até que a mais velha deu um passo à frente da multidão encolhida.
"Certamente, meu rei. Que ninguém duvide de suas palavras." Ela olhou por cima do ombro para os outros, que dobraram o joelho um a um.
"Salve, meu rei."
"Salve, Rei Brago."
"Salve Brago, o Rei Eterno."
A Rosa Negra
Por Matt Knicl | 21/05/2014
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author: "Matt Knicl",
doc
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A casa era mais ornamentada do que precisava ser. A mansão de Marchesa agigantava-se sobre as casas palacianas de seus vizinhos, cada andar extra um marco de seu sucesso. Enquanto os ricos podiam pagar por três a quatro andares em suas casas, Marchesa tinha nove, sete dos quais estavam majoritariamente sem uso, embora servissem aos seus propósitos.
Situada entre a elite de Paliano, a Cidade Alta, Marchesa recebia um convidado e parceiro de negócios das terras baixas, Ervos Trax.
Marchesa e Ervos eram parceiros de negócios de longa data. A rede de espiões e ladinos de Marchesa controlava grande parte da Cidade Alta, enquanto o império criminoso de Ervos estendia-se das terras baixas até a cidade de Talon e as docas além. Apesar de seu poder nas terras baixas, Ervos ainda não era da Cidade Alta. Suas melhores roupas, que ele claramente vestira para a ocasião, eram chiques para os habitantes das terras baixas, mas estavam fora de moda e eram pouco impressionantes para um nobre da Cidade Alta. Ervos fizera a árdua subida pelos Mil Degraus até a Cidade Alta vindo das terras baixas. Marchesa o convidara para jantar, mas não enviara um navio para buscá-lo — embora possuísse vários tripulados por pilotos.
Marchesa e Ervos estavam sentados na terceira melhor sala de jantar de Marchesa, o que lhes proporcionava uma refeição mais íntima. Em vez de sentar-se na extremidade de uma mesa maciça destinada a receber duas dúzias de pessoas, Ervos sentava-se à frente de Marchesa.
Ervos ainda não chegara à meia-idade, embora em sua linha de trabalho isso o tornasse ancião. Ele era indiscutivelmente bonito, com cabelos castanhos claros e dentes mais retos que a maioria. Com sua boa aparência e charme inegável, ele explorara suas primeiras vítimas. Embora vestisse a moda da estação passada, um terno um tanto berrante feito de tecido dourado, Marchesa notou que Ervos ainda era agradável aos olhos.
Marchesa usava seus cabelos pretos como corvo presos com grampos ornamentados. Nobres e ladrões se perguntavam por que Marchesa insistia em vestir a moda das mulheres mais velhas de Paliano, embora ela fosse apenas ligeiramente mais velha que Ervos. Mesmo agora, em um jantar mais casual, ela vestia o vestido que tipicamente se veria na Alta Câmara durante uma votação, usado por uma senadora caindo no sono enquanto a chamada era computada. Alguns suspeitavam que ela se vestia dessa forma para impor o papel que desejava sobre os outros, enquanto outros sussurravam que a Rosa Negra se considerava a governante da cidade. Ervos sempre sorria desses boatos, pois sabia que Marchesa se vestia assim simplesmente porque gostava das roupas e, embora fosse uma mulher de grandes segundas intenções, sua vestimenta não as tinha. Ela portava bem o estilo das anciãs, pensava Ervos, de algum modo permanecendo fluida em seus movimentos, usando os braços para falar e caminhando rápido ao conversar, embora o estilo fosse tipicamente usado pelas lentas e rígidas.
Paliano, a Cidade Alta | Arte de Adam Paquette
Marchesa também usava um anel em cada dedo, cada um caro e ornamentado. O maior era o rubi que usava no dedo médio esquerdo. Cada anel abrigava um veneno diferente, mas o rubi continha o mais mortal de Fiora.
Ali sentavam-se, régios e dignos, dois assassinos comendo lentamente sua refeição de cordeiro assado e vegetais exóticos ao vapor. O único som na sala era o tilintar dos talheres contra os pratos, as facas cortando o cordeiro e arranhando a cerâmica por baixo. Então Ervos, sem olhar para sua anfitriã, falou.
"Acho que vou mandar matar você", disse Ervos, dando em seguida uma mordida em um pedaço de pão com manteiga em excesso.
Marchesa parou de cortar sua comida, mas apenas brevemente, e continuou a fatiar cuidadosamente seu porco.
"Ah?", respondeu ela após o silêncio. Deu uma mordida em sua comida, com os olhos fixos no prato. "E como você faria isso?"
Ervos olhou para Marchesa e encostou-se no encosto da cadeira, sentando-se ereto.
"Seria um desafio, tenho certeza, mas eu tenho um plano", disse Ervos, confiante.
Marchesa tomou um gole de vinho e depois partiu um pedaço de pão da cesta à sua frente.
"E por que você desejaria me matar?"
"Negócios, puro e simples. Canso-me de fazer a subida pelas escadas, e minha rede está agora avançando firmemente para a Cidade Alta. Você, Cara Amiga, é o meu único obstáculo. E sei que você nunca permitiria que um rival tivesse tanto poder em sua cidade."
"Entendo. Mas por favor, não me provoque com noções vagas", disse Marchesa, quase em tom de brincadeira. "Preciso saber como você planeja acabar com minha vida. Compartilhe os detalhes."
Ervos colocou ambas as mãos sobre a mesa e sorriu.
"Bem, é claro que eu não poderia atacar agora. Você tem pelo menos dois... não, três homens, em suas paredes. Não ouço nenhuma respiração, embora note que este seu palácio tem um cheiro forte de raiz de yantal. Isso significa que você está tentando encobrir um cheiro, então eu apostaria em zumbis, muito provavelmente vinculados a protegê-la se você ou eles sentirem perigo."
Marchesa recostou-se na cadeira, sorrindo, enquanto bebericava seu vinho, segurando o cálice despreocupadamente de lado enquanto apoiava o braço no descanso.
"Eu nunca sairia vivo", continuou Ervos, "mesmo que eu a derrubasse onde está sentada agora e usasse um feitiço para tornar os zumbis inertes, eu ainda precisaria sair da casa. Eu teria duas vias de saída, o jardim ou os esgotos — que sei, após assassinar o registrador da cidade e roubar as plantas de sua casa, conectam-se ao seu porão. O jardim estaria coberto pelos arqueiros empoleirados em seu telhado, e os esgotos sem dúvida me colocariam em conflito com aquele maldito Grenzo com quem você tem acordos. Da mesma forma, suspeito fortemente que, se eu a assassinasse, seria, é claro, atingido por algum tipo de maldição sombria que me deixaria em um estado de dor horrível, mas nunca permitindo que eu morresse."
Ervos riu. Marchesa tomou um gole de vinho.
"Por que eu deixaria as plantas reais da minha casa com o registrador?", perguntou Marchesa.
"É claro que não são as plantas reais, embora sem dúvida você tenha feito executores ameaçarem o registrador para que ele pensasse que eram reais, e mantido vigilância sobre o homem para que, se ele fosse abordado por outro, você soubesse. O que significaria que o porão nem sequer levaria aos esgotos ou, se levasse, poderia me derrubar em um duto que me faria cair para fora da cidade, despencando para a morte certa nas terras baixas abaixo."
Arte de Dan Scott
"Você me dá muito crédito, Ervos. Agradeço pela gentileza." Marchesa colocou o cálice na mesa e inclinou-se para frente, apoiando a cabeça no arco formado por suas mãos. "Por favor, prossiga."
Ervos sorriu e continuou.
"Sabendo que o registrador seria um beco sem saída, com o perdão do trocadilho, eu teria que pensar em como atacar de longe. Ora, meu primeiro palpite seria envenenar sua comida, mas como esse é um de seus motivos favoritos, você estaria bem preparada para essa manobra. Imagino que você obtenha sua comida de diferentes locais, alguns até das terras baixas, usando mensageiros diferentes a cada vez, para não dar a ninguém a oportunidade de adulterar suas refeições. Também estou razoavelmente certo de que você daria sua comida para — não, você não é cruel o suficiente para fazer isso com um funcionário — mas talvez para ratos ou goblins, para ver se eles caem mortos. Então, matá-la através da comida estaria fora de questão."
"É bom saber que esta não foi minha última ceia", comentou Marchesa. "Eu teria preferido uma safra melhor de vinho."
"Com certeza", concordou Ervos. Recostou-se na cadeira. "E como já mencionei, sua casa é uma fortaleza. Você não viaja regularmente, mas quando o faz, viaja com guardas armados e agentes vestidos como nobres e gente de rua, com alguns correndo pelos telhados. Um assalto direto a você deixaria muitos mortos, e você tem contatos suficientes para que angariar apoio fosse difícil. A notícia da minha sedição eventualmente chegaria aos seus ouvidos. Mesmo que eu tentasse recrutar uma gangha de goblins ou guardas Custodi, você provavelmente saberia."
"Parece que não tenho nada a temer", disse Marchesa, ainda sorrindo.
"Oh, mas tem, pois aí reside sua fraqueza", disse Ervos, dando agora um longo gole no vinho. "Nós dois, como um risco de nossos negócios, dependemos demais dos outros. O que é uma aranha quando não pode confiar em sua teia? Pessoas podem ser quebradas, pessoas podem ser levadas a virar a casaca. Então, com aqueles que a protegem e agem como seus agentes por toda a cidade, tudo o que eu precisaria fazer é encontrar alguém em sua organização que eu pudesse possuir."
"Muito verdadeiro, é claro, mas em qual peça você investiria para este papel?"
"Seria uma questão de acesso. Aqueles em sua guarda pessoal e seus servos domésticos seriam mais difíceis de encontrar; imagino cada um espionando os outros como parte de sua posição. Eu precisaria encontrar alguém de fora de suas operações, alguém que recebesse ordens daqueles a quem você dá ordens, mas não tão removido do topo a ponto de não saber nada. Eu precisaria de alguém como um capataz que supervisiona os carregamentos ou um guarda-livros que distribui fundos para seus assassinos. Eu precisaria de alguém como..."
"Pietro Lokosh?", interrompeu Marchesa.
Ervos tossiu e bebeu um pouco de vinho para acalmar a garganta. Marchesa aproveitou a oportunidade para dar mais algumas mordidas em sua comida, passando da carne para os vegetais, que estavam um pouco frios agora, mas ainda caros e deliciosos.
"Sim", disse Ervos, ainda combatendo a tosse, seu rosto ligeiramente mais vermelho pelo esforço. "Como um de seus subtenentes, Pietro Lokosh seria o tipo de pessoa que eu usaria. Eu usaria um agente meu para descobrir as fraquezas dele, como a família. E então eu o extorquiria, com ameaça de violência, para que me desse informações sobre como você move seu pessoal. Eu colheria informações ao longo de algumas semanas para ver onde você estaria mais vulnerável, mesmo que fosse apenas um ataque contra o seu bolso."
Infiltrado de Marchesa | Arte de Lucas Graciano
Ervos começou a tossir novamente, desta vez produzindo sangue nas mãos, que ele rapidamente limpou com um guardanapo de pano que estivera em seu colo. Marchesa viu isso, embora não tenha reconhecido o fato. Ela falou enquanto ele tossia.
"Eu, é claro, suspeitaria de tal subterfúgio e acabaria com a vida de Pietro Lokosh como precaução. Da mesma forma, eu localizaria seu espião e viraria sua lealdade com a promessa de ouro, permitindo-me manter melhor controle sobre você, alimentando-o com a informação que eu desejasse que você ouvisse, até que eu decidisse matar o espião e recuperar meu ouro. Para garantir."
Ervos assentiu enquanto ela falava, ainda tossindo em seu guardanapo ensanguentado, com o rosto mais vermelho que antes, e ergueu um dedo pedindo que ela fizesse uma pausa.
"Eu, é claro, saberia que o espião seria usado contra mim", disse ele, falando através da tosse, com sangue agora respingando em seu prato de comida inacabada. "Também sei que qualquer pessoa em minha organização seria, em última análise, corrompida por suas promessas, e eu nunca poderia confiar em alguém que já tivesse estado a seu serviço. Também sei que não sou tão adepto a conhecer pessoas quanto você, vendo todas as variáveis. Admito isso como minha falha. Eu saberia que não seria capaz de matá-la, mas conforme nossos negócios continuam a se enfrentar, um de nós teria que morrer. Então, em vez de deixar que você me matasse, eu me envenenaria, sabendo que estaria morto independentemente de quaisquer esquemas que eu pudesse planejar."
Marchesa assentiu, com o sorriso agora desaparecido do rosto. "Estou impressionada, Velho Amigo. Direi que estou chocada com esta jogada. Eu planejara mandar matá-lo em sua cobertura secreta enquanto você dormisse daqui a duas noites. Parece que serei culpada por sua morte e enfrentarei a retaliação de seus associados."
Ela inclinou-se para frente. "Esta foi uma boa jogada."
Ervos sorriu, agora tremendo enquanto tentava se manter firme na cadeira, mas então desabou para frente, com o rosto no prato, morto.
Marchesa suspirou e mexeu em seus anéis. Levantou-se, empurrando a cadeira para trás, e caminhou até o corpo de Ervos. Queria beijá-lo na testa, mas sabia que Ervos teria colocado veneno em sua pele para se aproveitar de qualquer compaixão que ela pudesse demonstrar.
Em vez disso, saiu da sala para chamar seu mordomo, que estivera no quintal desde antes de Ervos chegar, cavando um buraco para o seu corpo. Marchesa sabia que seu rival tiraria a própria vida, mas queria que ele tivesse a vitória final ao morrer, mesmo que ela soubesse de sua jogada o tempo todo.
Marchesa, a Rosa Negra | Arte de Matt Stewart
Como Engrenagens
Por Matt Knicl | 28/05/2014
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author: "Matt Knicl",
doc
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#strong[Conselho de Consultores Seniores da Academia da Cidade Alta de Paliano] #linebreak() Reunião convocada pelo Chanceler Grinaldi.
#strong[Membros presentes:] #linebreak() Chanceler Grinaldi#linebreak() Vice-chanceler Alendis#linebreak() Professora Emralla#linebreak() Professor Fimarell#linebreak() Professor Muzzio#linebreak() Professor Tulando
#strong[Membros ausentes:] #linebreak() Professor Regness (licença sabática)
#strong[Assuntos] #linebreak() Moção do Professor Muzzio: Para que o Professor Muzzio se torne vice-chanceler assim que Alendis se aposentar.#linebreak() Votação: 1 a favor, 5 contra#linebreak() Resolvido: moção rejeitada
Moção do Chanceler Grinaldi: Para eleger o Professor Tulando vice-chanceler assim que Alendis se aposentar.#linebreak() Votação: 4 a favor, 1 contra, 1 abstenção#linebreak() Resolvido: moção aprovada
"Você acha que ele ficou zangado?", perguntou o ancião professor ao seu colega enquanto caminhavam para a antecâmara da academia.
"Não, Tulando, é claro que não", respondeu o chanceler. "Muzzio é um homem prático. Não demonstrou nenhuma emoção quando proferimos o voto. Juro que ele não é melhor que uma máquina."
"Você falha em lhe dar crédito, Chanceler. Suas invenções revolucionaram nossa sociedade. Agora dependemos de seu trabalho de uma forma ou de outra."
"Oh, com certeza", respondeu o chanceler. "Mas é por isso que precisamos dele em uma oficina e não atrás de uma escrivaninha."
O professor olhou ao redor da antecâmara de mármore vazia. Era noite e não havia ninguém por perto, mas ainda assim o professor achou melhor baixar a voz.
"Você ouviu os boatos sobre ele, presumo?"
O chanceler desdenhou.
"Poupe-me. Que ele é um agente da Rosa Negra? Ou aquele de que ele ainda é o patrono da desistente, Sydri?"
"Ele certamente matou Daretti."
"Se o fez, prestou-nos um favor", disse o chanceler. Ele arrependeu-se instantaneamente da declaração, com a reunião da noite e as horas tardias alterando seu humor. "Não ouvirei mais esse tipo de conversa. O assunto está resolvido."
O professor assentiu para o chanceler e ambos seguiram caminhos opostos.
Para Muzzio, o assunto estava longe de resolvido. Sentava-se em sua oficina, aquela desconhecida por seus colegas, cercado por dezenas de dispositivos semiacabados e remendados. Em meio à desordem de livros e peças, Muzzio contemplava. Não fora eleito vice-chanceler, o que mudava meses de planejamento delicado.
Muzzio, Arquiteto Visionário | Arte de Volkan Baga
Ao contrário de seus contemporâneos, que teriam amassado todos os seus planos e notas em fúria, Muzzio recolhera todos eles, garantindo que estivessem planos e sem dobras, e os arquivara. Nunca se sabe quando poderei precisar deles novamente, pensou ele. Sua mente corria com centenas de cenários, com plantas de eventos se desenrolando. Precisava trabalhar seus pensamentos.
Após a reunião, ele convocara seu aprendiz, Irie. Um jovem da Cidade Baixa, Irie não tinha fundos para entrar na academia. Muzzio vira o potencial no rapaz e o aceitara como seu aprendiz. Irie mantinha a oficina de Muzzio em troca das mesmas lições que outros gastavam fortunas familiares para obter — mesmo que a maior parte do tempo do rapaz fosse gasta buscando peças e livros na Grande Biblioteca. Muzzio passara alguns meses treinando Irie, mas precisava acelerar as lições.
Sem fôlego, Irie subiu as escadas para a oficina.
Análise Iterativa | Arte de Winona Nelson
"Sinto muito, Mestre", disse Irie apressadamente. "Vim o mais rápido que pude."
"Você veio o mais rápido que calculei que viria", respondeu Muzzio, levantando-se de sua mesa. "Não há necessidade de se desculpar quando eu o incomodo."
Muzzio caminhou até uma de suas muitas estantes de livros desorganizadas. Nela repousava o elmo de um modelo inicial de um de seus constructos sentinelas. Ele o girou no sentido anti-horário onde estava, e a estante de livros afundou no assoalho, revelando degraus de mármore que desciam por uma escadaria em espiral. Irie fingiu parecer maravilhado, tendo já encontrado a passagem secreta no segundo dia de seu aprendizado. Muzzio sabia que Irie a encontrara, e que ele estava fingindo choque. Irie suspeitava que seu mestre soubesse que ele já estivera lá embaixo antes, mas ambos estavam mais do que dispostos a jogar o jogo da ignorância.
Eles desceram a escadaria brilhantemente iluminada e emergiram em uma sala ampla, onde mais de cem constructos mecânicos estavam parados em fileiras. À frente da sala, onde Muzzio e Irie estavam, ficava a verdadeira oficina de Muzzio — mesas grandes onde Muzzio podia cuidar de suas criações como um médico cuida de pacientes; peças colocadas em locais deliberados espalhavam-se pelo espaço de trabalho.
A peça central da sala, cercada por ruídos de zumbido de várias máquinas e o exército de ferro, era uma maquete de Paliano, com tanto a Cidade Alta quanto a Cidade Baixa replicadas em detalhes incríveis. Ocupava quase um terço da sala. Irie passara horas verificando sua precisão e fora incapaz de encontrar falhas em seu design. A Cidade Alta agigantava-se sobre a Baixa, exatamente como em sua versão em tamanho real. O Rio Corru estava pintado através da Cidade Baixa, com cada curva e volta replicada. As casas em si não eram tão intrincadas quanto na realidade, mas locais importantes, como o palácio ou a academia, eram ornamentados e delicadamente pintados.
Acima dela, um dispositivo de engrenagem embutido no teto movia uma lua falsa e, de dia, era substituída por uma luz brilhante que viajava através da cidade falsa em tempo real. Quando chovia, Irie notava que o dispositivo movia tufos de algodão por trilhos no teto para replicar as nuvens. Não havia figuras de pessoas na cidade, mas Irie suspeitava que era assim que seu mestre preferia.
Muzzio já começara a trabalhar em um soldado constructo. Irie fazia o melhor para fingir que estava absorvendo a visão pela primeira vez.
"Você já matou alguém, Irie?", Muzzio perguntou calmamente, enquanto substituía uma engrenagem no constructo.
Preparações de Muzzio | Arte de Karl Kopinski
"Não, claro que não, senhor", respondeu o rapaz.
"Você acha que eu já matei alguém?"
Irie ficou sobressaltado com a pergunta e tentou bolar uma resposta significativa, mas só conseguiu responder: "Sim".
Sem emoção, Muzzio respondeu: "Que lamentável. Eu esperava que você pensasse melhor de mim."
"Desculpas, mestre, eu... é que... ouvem-se coisas."
"Nunca acredite em uma palavra que ouve em Paliano, Irie, a menos que venha de mim." Muzzio removeu o revestimento de outra parte do constructo, levando um monóculo de joalheiro e pequenas ferramentas às partes internas expostas. "Não, orgulho-me de dizer que nunca matei ninguém, nem tive necessidade de fazê-lo. Ao menos, ainda não."
"Isso é um grande alívio, Mestre", disse Irie.
Muzzio olhou para ele de sua posição curvada e encarou através do monóculo de joalheiro. "Não se arraste."
Irie assentiu.
"Todas as maravilhas mecânicas que nossa cidade conhece hoje vieram de mim. Não desejo me gabar, apenas demonstrar que não apenas possuo uma vasta inteligência, mas que sei como aplicá-la para o bem maior. Cada constructo em Paliano é ou construído com meus projetos ou a partir de meus projetos. A magia que os alimenta pode vir de várias fontes, mas os dispositivos em si devem sua lealdade a mim."
"O senhor quer dizer que pode controlá-los?", perguntou Irie.
"Posso, mas não preciso. Para cada obstáculo em direção ao meu grande projeto, há uma solução muito simples e não violenta: informação. Dentro de cada um dos constructos há uma série de agulhas que transcrevem tudo o que ouvem em cilindros de cera, que meus constructos furtivos podem recuperar para mim. Você se surpreenderia com o que as pessoas falam quando pensam estar na presença de um nada."
Irie sentia que sabia.
"As pessoas correm de um lado para o outro, mas em cada esquina, e agora em quase cada loja, um de meus constructos cuida delas. Minhas criações arquivam seus documentos, contam seu dinheiro."
"Então esse é o seu 'grande projeto', substituir as pessoas pelas máquinas?", perguntou Irie. "Não há pessoas em sua visão do futuro?"
Corretor de Negócios | Arte de Cliff Childs
Muzzio riu, o que deixou Irie inquieto.
"É claro que não! Tudo o que faço, faço pelas pessoas, para tornar suas vidas melhores."
"But a maneira como o senhor descreve a cidade, é como se quisesse que tudo funcionasse como um relógio."
"Esse é um belo objetivo", respondeu Muzzio. "Mas temerário. As variáveis humanas são o que sempre arruinará qualquer plano de perfeição mecânica que se possa esperar alcançar. Conheci alguns que estiveram em lugares incríveis e falam de antigos artífices guerreiros e dos mundos perfeitos que desejavam criar. Há até boatos de um lugar onde a perfeição das máquinas se funde inseparavelmente com a vitalidade da vida orgânica. Espero que possamos um dia ser como esses lugares. Devo mitigar as variáveis, o melhor que puder, para ajudar a sociedade a avançar."
Muzzio fechou o painel no constructo.
"Um verdadeiro artífice", continuou ele, "pode se afastar de uma criação e saber que ela continuará funcionando por conta própria. Mas até que eu saiba que posso me afastar, devo remendar e manter tudo como precisa ser. Eu não fabrico as peças, apenas as estou montando."
O constructo tremeu, depois começou a mover seus apêndices. Ele se empurrou da mesa e caminhou em direção a um espaço vazio nas fileiras dos outros soldados.
"Não preciso estar no comando", continuou Muzzio, em pé com as mãos nas costas, admirando seus soldados. "A posição de vice-chanceler teria me dado a autonomia e o poder necessários para passar para a próxima fase do meu plano. Não fui eleito vice-chanceler, o que, com base em minhas projeções, eu deveria ter conseguido facilmente. Mas a morte de Brago e sua aparente ascensão, que eu não pude prever, fizeram com que votassem com mais cautela."
"O que o senhor planeja fazer?", perguntou Irie. "O que o senhor precisa que eu faça para tudo isso?"
"Observar, ouvir e aprender", respondeu Muzzio. "Você é meu aluno, afinal."
Bibliotecário de Engrenagem | Arte de Dan Scott
Ao longo dos próximos dias, os constructos de Muzzio receberam novas ordens.
A Professora Emralla descobriu que o banco não tinha mais registro de seu dinheiro. O magíster garantiu a ela que nenhuma alma viva entrara nos cofres, nem teria sido capaz. Atrás do magíster, constructos continuavam a contar moedas, não mais nefastos que uma vassoura ou pá, movendo moedas de uma pilha para outra. Emralla entendia erros burocráticos, mas acabara de ser informada de que seu último pagamento de sua propriedade no Distrito Santuo — que ela sabia ter entregue ao constructo de entrega — nunca chegou à casa de empréstimos. Ela foi resolver a situação, mas rapidamente descobriu que, devido a erros burocráticos, a casa não estava devidamente registrada em seu nome e ela seria despejada. A tinta na pena do constructo de contabilidade nem sequer secara ainda.
O Professor Tulando temia um constructo descontrolado atacando-o nas ruas. Nunca gostara das máquinas e não tinha nenhuma em sua casa. Espiava nervosamente pelas janelas, mal conseguindo dormir à noite. Não há nada com que se preocupar, dizia a si mesmo. Muzzio é um homem razoável. Os boatos são apenas boatos. Estava quase superando seus medos quando foi cedo à sua mesa de café da manhã uma manhã. Seus servos ainda não haviam chegado para preparar sua refeição, mas havia uma pilha de papéis onde sua comida normalmente ficava. Os papéis documentavam, minuciosamente, como Tulando desviara fundos da academia para sua própria fortuna, chegando ao ponto de mostrar acordos secretos com o contrabandista Ervos Trax. Havia documentos assinados, e bastaria um desses papéis para resultar em sua prisão e demissão. Tulando era inocente de todos esses crimes, mas a mensagem fora clara. Ele renunciou menos de uma hora depois.
O dinheiro do Chanceler Grinaldi não foi tocado, seus títulos não foram alterados, nem ele foi injustamente incriminado ou chantageado. Ele estava tendo um caso, e um constructo registrou essa informação. Os detalhes foram documentados e um envelope em branco deixado do lado de fora da casa do chanceler para sua esposa encontrar. O chanceler foi forçado a deixar seu cargo para consertar sua vida pessoal.
A equação permanecia a mesma, mas as variáveis eram diferentes.
#strong[Assuntos] #linebreak() Moção do Professor Muzzio: Para que o Professor Muzzio se torne Vice-chanceler assim que Alendis se tornar Chanceler.#linebreak() Votação: 1 a favor, 0 contra, 3 abstenções#linebreak() Resolvido: Moção aprovada
#strong[Conselho de Consultores Seniores da Academia da Cidade Alta de Paliano] #linebreak() Reunião convocada pelo Vice-chanceler Alendis.
#strong[Membros presentes:] #linebreak() Vice-chanceler Alendis#linebreak() Professor Fimarell#linebreak() Professor Muzzio#linebreak() Professor Regness
#strong[Assuntos] #linebreak() Moção do Professor Muzzio: Para que o Professor Muzzio se torne vice-chanceler assim que Alendis se tornar chanceler.#linebreak() Votação: 1 a favor, 0 contra, 3 abstenções#linebreak() Resolvido: moção aprovada
Sangue Clama por Sangue
Por Shawn Main | 04/06/2014
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author: "Shawn Main",
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Algumas das larvas não eram maiores que uma moeda. Pálidas e carnosas, elas se contorciam pelas fendas no chão. Besouros com pernas rígidas e estalantes corriam sobre elas, sibilando uns para os outros ao passar. Centopeias, longas como o braço de um humano, enrolavam-se nas caixas torácicas secas de prisioneiros mortos há muito tempo. Para quem estava em isolamento, Selvala certamente não se sentia sozinha.
"Pequena corça."
A voz era um sussurro nodoso infiltrando-se pela porta da cela. Ela não vira o carcereiro, mas ouvira aquela voz, acumulando seu som no fundo de seus ouvidos. Nos primeiros dois dias, houvera um desfile de goblins batendo em sua porta, gritando em suas vozes estridentes. Ela lidara com cada um deles por vez.
"Pequena cooooorça."
Selvala permaneceu imóvel e focou nos insetos fervilhantes. Quando não os observava, a vertigem a dominava — os insetos individuais desapareciam e, em seu lugar, o chão e as paredes pareciam contorcer-se e respirar como se ela estivesse no estômago de algum grande animal.
"Corça feliiiiiiiz."
E quando ela não os observava, coisinhas começavam a rastejar pelo couro de suas botas. Ela se perguntava se eram atraídas pelo cheiro de sangue seco. Três dias depois, era tudo o que conseguia cheirar.
"Doce cooooooorça."
Aquele sangue atraíra uma multidão três dias antes também, mas então estava úmido e vermelho e corria por sua faca como água. Ela não queria pensar nisso. Não queria ouvir a voz do carcereiro. Focou no enxame. Sua boca estava ressequida.
"Corça assassinaaaaaaaa."
Agora, embebido em suas luvas, o sangue tinha a cor de ferrugem. Três camadas haviam sido adicionadas sobre aquela. Sangue de goblin. Preto. Viscoso. Pegajoso. Ela se perguntou se deveria oferecer as luvas aos seus companheiros de cela. Eles poderiam mastigar as luvas até ficarem limpas novamente.
Três dias pareciam ter passado há muito tempo.
"Corça mortal. Corça cruel. Corça homicida."
Ela focou em sua respiração e tentou não ouvir o som do carcereiro logo além da porta de sua cela. Sabia que ele estava observando pelas barras, o rosto achatado pressionado contra elas, as chaves tilintando ao seu lado.
"Você não quer seu jantar, Corça?"
Ela se perguntou se conseguiria se mover rápido o suficiente para alcançar a porta antes que ele pudesse reagir, imaginou se conseguiria cravar um estilhaço de osso em seu crânio enquanto ele ainda estava tão perto.
"Certamente", disse Selvala. Ela engoliu em seco. Não falava há três dias e sua voz era como pedras. "Por que você não entra aqui e me entrega?"
O carcereiro riu entre dentes. Sua voz descorporificada ecoou de além da pesada porta.
"Oh corça, por quem você me toma? Você tirou o olho de um dos meus melhores agentes. O que você tem contrabandeado aí dentro, agulhas de tricô?"
Selvala sorriu e tateou a arma rústica e afiada ao seu lado. "Um fêmur."
"Há!", exclamou ele. "Osso no olho! Eu sabia que você seria boa. Uma mestra! Os outros disseram que você era só conversa, mas aqui está você: minha assassina perfeita."
O sorriso dela dissipou-se. Ela não olhou para o rosto de seu carcereiro, mas o imaginou. Dentes amarelos, olhos saltados, hálito quente e pútrido. Ele também não fora feito para Paliano.
"Bem, seu tio Grenzo a perdoa", disse o carcereiro. "O que é um pouco de sangue entre amigos?"
Grenzo, Guardião da Masmorra | Arte de Lucas Graciano
Ela voltou sua atenção finalmente para a porta. O rosto inchado e sorridente dele observava por entre as barras da janela estreita. "Por que você não sai daqui?", perguntou ela. "Estou formulando minha fuga."
O sorriso dele cresceu até mostrar todos os seus dentes podres. Ele perguntou: "Como é a sensação de matar um homem que você ama?"
Ela virou-se para o outro lado, voltando-se para os besouros que estalavam sob suas botas. Estivera nas terras baixas, sobrevivera na natureza, conseguia suportar o gosto de inseto. Teriam nobres morrido de fome aqui, recusando-se a dignar-se a comer do chão?
"Responda-me essa única pergunta, corça delicada, e eu destrancarei esta porta."
Ela tensionou os músculos. Bastaria um bote rápido e esta conversa estaria terminada. Seu estilhaço de osso não era nenhum florete, mas ele era um trambolho de criatura e daria conta do recado.
Ela disse: "Tenho certeza de que você não precisa que eu responda a essa pergunta."
"Oh, mas eu preciso. Minhas mãos estão limpas."
Ela olhou para o crânio que jazia no canto. Suas órbitas vazias olhariam para sempre para o teto gotejante desta cela.
Ele disse: "Tudo o que faço é girar algumas chaves e falar."
Ela contemplou as histórias que ouvira sobre o carcereiro, sobre seus agentes fervilhando nos esgotos, rastejando pela noite — assassinos mercenários e espiões, resolvendo problemas e vigiando oportunidades de chantagem.
Ele esperou que ela falasse. Quando ela não o fez, ele disse: "E eu girarei esta chave aqui — já fiz isso antes — se você responder à pergunta do seu querido velho tio Grenzo: Como é a sensação de matar um amigo?"
Selvala disse: "Fácil demais."
Ele desdenhou. Ela esperou. Acima do sibilado dos besouros, o tilintar das chaves, o clique da fechadura. A porta deslizou aberta com um rangido.
"Na próxima vez, talvez ela emperre", disse ele do corredor.
Ela voltou sua atenção para a porta. Ninguém veio. Além, ouvia a respiração pesada do carcereiro na passagem.
Ela não entendia, não conhecia o jogo dele. Sabia que estava sendo manipulada, mas para qual fim?
Plano de Reserva | Arte de David Palumbo
"Venha para fora", disse ele. "Tenho um odre de água e uma jarra de vinho. Você dividiu seu tempo entre a cidade baixa e a alta. Não sabia qual você iria querer."
Selvala deu um passo leve em direção à porta. As sombras tremiam à luz das tochas. Grenzo tinha uma estrutura enorme para um goblin, mas estava curvado, como se seus ossos estivessem se rebelando contra ele. Ele apertava seu cajado e ela se perguntava se ele conseguiria dar um passo sem ele. Erguia o odre de água ao alto. Ela esperou pela armadilha — uma dúzia de agentes dobrando a esquina? Presentes envenenados? Alguma magia sombria?
Grenzo virou a cabeça de um lado para o outro como se considerasse os túneis. "Você pode correr, Corça, mas a trilha é traiçoeira. Eu a levarei pelo caminho."
Ela apertou o estilhaço de osso e contemplou a jugular dele. Era grossa, como uma cobra dormindo em seu pescoço.
"Bem, vá em frente então", disse ela, assentindo. "Lidere o caminho."
Grenzo estava certo. Os túneis eram como artérias, ramificando-se e mudando de direção para sempre. Selvala era estudada em rastreamento e tentava dar sentido aos caminhos, procurando saídas pelas quais escapar ou marcos caso precisasse voltar sobre os passos para despistar perseguidores nos túneis. Mas o trabalho em pedra era implacável. Os únicos pontos de guia eram o tagarelar ocasional de goblins — desviando o olhar de Grenzo ao passar — e os lamentos dos prisioneiros — implorando a Grenzo por suas chaves.
Caminharam por um longo tempo. De vez em quando, Grenzo parava e cutucava o teto acima deles. "Palácio", dizia ele e ria. Ou "Aposentos de Brago. Não precisará mais disso!". "Loja de Sydri — pelo menos desde o pôr do sol de ontem." Lentamente, o mapa de Paliano começou a fazer sentido para ela, mas ainda assim não sabia para onde ele a levava nem com qual propósito. "Câmara secreta do conselho", disse ele, e observou o rosto dela para ver se ela sabia.
Em certo ponto, ele parou e farejou o ar. Ergueu seu cajado e o bateu contra o teto acima deles. "Tesouraria", anunciou. Então apontou seu cajado como um dedo longo e ósseo. "Siga por aquela passagem e ela leva direto ao cofre. Pegue um punhado de ouro para sua viagem, se quiser. Encha suas botas, se quiser. Está livre para quem quiser pegar."
Ele a encarou, esperando por uma reação. "Não a excita? O pensamento de que estamos no coração secreto de Fiora?" Ela o encarou, tentou manter o rosto neutro, não lhe oferecendo nada. "Já quis ver a coleção particular de esculturas do rei? Já comeu ovo pochê de ave-do-paraíso? Não é deste mundo! Há escadas para aquela cozinha também. Cada porta secreta, cada fechadura secreta é conhecida por mim!"
Ele ergueu suas chaves e as sacudiu para ela. "O que você quer, Pequena Corça? Qual é o seu preço? Sei que não é ouro, mas posso lhe oferecer montes. Acesso? Quer deixar a cidade alta? Ou libertá-la? Abrir os portões secretos e deixar a gentalha lá de baixo subir para as nossas ruas? Grandes polias para içar as feras do mundo antigo? Informação? Apenas pense no que teria sido espionar seu querido amigo, Brago, e perscrutar suas tramas secretas. Talvez então você não tivesse sido tão rápida com a faca. Ou teria sido mais rápida! Teria terminado o serviço enquanto ainda tinha a chance."
Ele aproximou-se e içou-se ao nível do rosto dela. Ela rangeu os dentes.
"Outra chance de matar um amigo? É isso o que você quer? Mais mortes? Posso providenciar isso também. Podemos fazer estes esgotos correrem vermelhos pela carnificina de tudo isso." Ele sorriu e seus olhos a observavam de perto. "Que tal a oportunidade de matar um inimigo para variar?"
"O que", disse ela, "estão me pedindo para fazer?"
Ele riu triunfante. Foi alto e desenfreado. Ela não sabia quão fundo os túneis corriam, mas devia ser fundo o suficiente para mascarar a gargalhada de um louco. Ele correu por uma passagem, depois parou, gesticulando para que ela o seguisse.
Ele encostou o ouvido na parede e ela fez o mesmo. Havia som ali, embora ela não conseguisse identificá-lo — baixo e ressonante, como um grande elefante arrastando uma corrente, mas havia outros sons também. Cliques e zumbidos suaves e rítmicos. Lembravam cantos de pássaros, mas havia algo estranho neles — algo impossivelmente regular.
Grenzo vasculhou chave após chave, procurando uma em particular. Com um sorriso, encontrou-a e a inseriu em uma fechadura secreta nas pedras. A parede abriu-se. Grenzo, dançando de empolgação, acenou para que ela subisse as escadas.
O rouxinol era feito de arame, seu bico dois fechos de latão que se abriam enquanto ele cantava sete notas perfeitas. Ele então agitava suas asas falsas e girava uma vez em um círculo para cantar novamente. Aquelas mesmas sete notas ecoavam pela biblioteca, subindo alto em direção ao teto abobadado.
Ao redor de Selvala, autômatos ornamentados estalavam e zumbiam. Membros metálicos e aracnídeos organizavam livros nas prateleiras. Olhos de vidro em longos pescoços de ferro seguiam-nos, girando de um lado para outro como se verificassem erros. No canto, uma carcaça de ferro com formato humano passava pincéis finos sobre uma tela em círculos uniformes, uma paisagem tomando forma lentamente em seu rastro.
"A biblioteca de Muzzio?", perguntou Selvala em um sussurro.
"Há uma ordem terrível em tudo isso, não há?", disse Grenzo. Sua respiração era penosa, como se o ar fosse mais rarefeito. "O grande arquiteto tirano, Muzzio — aluno de Daretti, que olhou para as próprias pernas uma manhã e disse: 'Posso fazer melhor'. Ele nos prometeu um novo mundo. Um que fosse perfeitamente trabalhado. Um que fosse programado e compreendido. Um que ele construiria para substituir a todos nós."
Muzzio, Arquiteto Visionário | Arte de Volkan Baga
Contra a parede distante, elevando-se a quase dois andares de altura, estava uma fera de máquina. Polias estendiam-se por seus membros de madeira como tendões. Uma bocarra de engrenagens terríveis parecia sorrir para eles. A fera estava imóvel como uma estátua, mas entre suas pernas, Selvala conseguia ver uma grande porta vermelha.
"Então o que você quer, Pequena Corça? Seu mundo é mergulhado em lama e sangue e bile. Estes animais reluzentes seriam um novo zoológico para um novo mundo."
"O que estão me pedindo para fazer?", repetiu ela.
"É um novo mundo, Corça. Você o colocou em movimento. Temos um rei sem sangue. Temos feras com carne de ferro. O futuro é imortal, inorgânico, a menos que você aja agora." Grenzo ergueu seu chaveiro e escolheu uma única chave. Era decorada com padrões espiralados entrelaçados — um objeto de artesão, como tudo ali.
O sorriso de Grenzo e seus olhos arregalaram-se, prontos para escapar do crânio. Com uma respiração pesada e excitada, disse: "Através daquela porta, Muzzio repousa dormindo."
Selvala afastou-se dele. "É isso o que você está me pedindo? Para eliminar seu rival? O quê? Como agradecimento por girar uma chavezinha?"
"Não meu rival. Alguém que veria seu mundo sangrento varrido e substituído."
Ela encarou Grenzo, sustentando o olhar daqueles olhos amarelos. Ele sorriu mais largamente e ela chutou o cajado dele, enviando-o longe. Grenzo desabou no chão. Ela buscou a lâmina de osso ao seu lado com uma mão e ajoelhou-se para agarrar a garganta de couro do goblin com a outra.
"Eu deveria cortá-lo aqui mesmo. Não serei seu capanga de aluguel. Não ajudarei você a mutilar Paliano em sua imagem distorcida."
E então ela viu o brilho amarelo. Virou a cabeça para observar o grande constructo erguer-se de seu sono sem espírito. Suas engrenagens giravam cada vez mais rápido. Suas polias esticavam-se tensas enquanto ele se preparava para saltar para frente.
Autômato à Espreita | Arte de Yeong-Hao Han
Soltando Grenzo, Selvala rolou para fora do caminho da máquina. Grenzo moveu-se também, fugindo com uma velocidade que ela não esperaria de sua estrutura depauperada.
A máquina desferiu um golpe com uma grande pata. Ela se abaixou e livros voaram sobre sua cabeça, tomos chovendo sobre ela. Os bibliotecários mecânicos correram para recolher os destroços.
Selvala olhou para o fêmur rachado em sua mão. Não era muita arma. Sabia onde golpear em algo humano, sabia como caçar as grandes feras, mas o fêmur nem sequer amassaria o revestimento da máquina.
Ela correu por entre as pernas da máquina e procurou pelo carcereiro. Ele estava de volta na escadaria secreta, fechando o alçapão escondido no assoalho.
"Qual mundo você quer, Selvala?", gritou ele e, com uma grande gargalhada, bateu a porta fechando-a.
Ela mergulhou e tentou enfiar os dedos na fechadura secreta da porta secreta que levava de volta para a subcidade de Grenzo. Atrás dela, o guardião de Muzzio retorcia seus membros de madeira, preparando-se para golpear novamente. Ela enterrou sua arma na fechadura, forçando rudemente cada vez mais forte enquanto a fera descia. Então, com um estalo, o osso partiu-se ao meio e a fechadura cedeu.
Selvala sentiu como se estivesse caindo enquanto tropeçava pelos esgotos. Atrás dela, ouvia o tropel das grandes pernas da máquina. Em sua mente, sentia o hálito frio da fera em seu pescoço, mas sabia que era apenas sua imaginação. Em seus braços, carregava os tomos de Muzzio. Eles caíam de seus braços enquanto ela corria, mas esse era o ponto. Um exército de bibliotecários artificiais a perseguia, enchendo os túneis escuros com o estalido de seus membros.
Em algum lugar, ouvia o guincho de goblins, seus túneis abertos e enchendo-se de coisas que não eram de seu mundo. Logo eles se chocariam — os assassinos secretos de Grenzo e os animais artificiais de Muzzio — e ela não sabia qual lado venceria. Esperava que ambos os lados tivessem seus segredos expostos para toda Paliano ver, mas sabia que isso também poderia não ter sucesso.
Quando Selvala correu longe o suficiente para não ouvir mais a batalha atrás dela, desabou. Encontrou uma cela destrancada e rastejou para o canto com os besouros. No dia seguinte, deixaria a Cidade Alta e voltaria para os lugares selvagens lá embaixo e além. Suas botas estariam incrustadas de lama, seus membros cansados e suados enquanto corria pelas árvores, colhia frutas e observava as feras selvagens. Mas, naquelas horas, sua tarefa era esconder-se na escuridão com os insetos e dormir.